RIR, CHORAR E COMPREENDER
Emir Sader
Laboratório de Políticas Públicas (LPP/UERJ)
Os brasileiros estão mesmo precisados de acreditar em algo. Quando
Clóvis Rossi desce do ceticismo militante, "blasé", da Folha de São Paulo,
para se arriscar a dizer, prematuramente, que o quarteto da atual seleção
brasileira é ou será melhor que o da Copa de 70 -,revela-se a profundidade
da necessidade de acreditar que os brasileiros têm, diante de tantas
decepções.
Mas apontar errado para o que queremos acreditar pode levar a novas
decepções. A seleção brasileira não havia jogado bem nenhuma partida com o
tal quarteto, fez um jogo razoável contra um Paraguai que jogou muito mal e
logo apareceram as novas versões do que antes se chamada de "patriotadas" -
expressão hoje talvez considerada "politicamente incorreta". Sejamos claros:
o quarteto atual tem très jogadores muito bons - Ronaldo, Ronaldinho e
Robinho -, mas que ainda não demonstraram que, juntos, formam um grande
conjunto. O quarteto de 70 era melhor individualmente - a começar por Pelé,
incomparável -, mas demonstrou, diante de adversários fortes, que era um
grande time. O quarteto de 82 - Falcão, Sócrates, Zico e o Reinaldo, que
infelizmente não foi à Copa - era melhor, individual e coletivamente. O trio
Rivaldo, Ronaldo e Ronaldinho, da Copa passada, mostrou-se mais efetivo do
que o atual, que ainda tem que mostrar muito para que se possa acreditar nos
seus méritos - mais além da derrota contra a Argentina.
Atenção, para não apostar nas esperanças erradas: o que o Brasil tem de
melhor, não é nem futebol, nem telenovela. O que o Brasil tem de melhor é
sua cultura, seu pensamento crítico e os movimentos sociais.
O que me fez mais acreditar em algo é quando vejo o MST. A marcha para
Brasília faz acreditar em quem quer acreditar. Os assentamentos, as escolas,
o resgate da dignidade dos que seriam os brasileiros mais abandonados e sem
esperança, faz crer muito mais que em quartetos: faz acreditar em
coletivos, de centenas de milhares de pessoas, que se movem por idéias e
fazem mover as idéias de que não se esterilizou pelo ceticismo.
Para não falar nas distintas expressões culturais brasileiras - de que a
música se mantêm com a melhor - e no pensamento crítico brasileiro -, que
nos permite compreender melhor porque somos a pior ditadura social do mundo,
tendo tantas possibilidades de fazer com que nos orgulhemos do que o Brasil
poder vir a ser - se não nos equivocarmos naquilo em que apostamos.
Espinoza notabilizou a frase: "Nem chorar, nem rir: compreender". Não
temos que escolher, podemos ter os três, por que não? O melhor é: "Chorar,
rir e compreender". Dá mellhor conta do nosso presente e nos prepara melhor
para transforma-lo revolucionariamente.
09/06/2005